DC Diálogo: Rita Carmo
O periodo de votação terminou e tu escolheste as melhores perguntas que foram questionadas a Rita Carmo. A entrevista encontra-se em baixo.
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Como foi a transição do trabalho com filmes tipo "Kodak" para a tecnologia digital? Houve redefinição de técnicas ou mesmo resistência a nova tecnologia?
(+4 pontos, submetida por blogdogipo)
Inicialmente, tive alguma "resistência" à nova tecnologia sim. Não por rejeição ao digital propriamente dito, já que trabalho diariamente com Photoshop desde 1993, mas por "desconfiança" (justificadíssima) da qualidade das imagens produzidas por máquinas digitais nos primeiros tempos. Sempre fotografei a pensar que determinada imagem poderia ser mais tarde necessária para uma capa do BLITZ, ou qualquer outro meio. Portanto, para mim, uma imagem não poderia ter 10cm de largura e ficar satisfeita com isso. Até porque, apesar de ter iniciado o meu trabalho a preto & branco, passei quase de seguida para diapositivo, que tem um grau de exigência em termos de medição de luz muito elevado. E uma excelente qualidade final, diga-se. Foi esse o meu grande treino.
Passei para máquinas digitais (relutante) em 2004. Ainda fotografei certos trabalhos mais exigentes em diapositivo durante uns 3 ou 4 meses, até que deixei completamente a minha máquina analógica no fim de 2004.
Hoje, não uso de todo máquinas analógicas.
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Consegues lembrar-te de alguém que tenha sido particularmente difícil de fotografar?
(+3 pontos, submetida por ivosilva)
Claro que sim! Mas seria extremamente deselegante da minha parte dizê-lo publicamente, não? Principalmente porque é raro fotografar pessoas desconhecidas do grande público: o meu trabalho é fotografar "artistas", fazê-los brilhar!
Se por vezes custa um pouquinho mais, obriga-me a mim maior jogo de cintura, colocar a pessoa à vontade frente à minha máquina. É maior o desafio, mas nem sempre pior o resultado!
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Dos muitos anos que já levas de carreira, certamente terás histórias engraçadas para contar. Já te aconteceu por exemplo perderes as fotos de uma noite de trabalho?
(+3 pontos, submetida por ivosilva)
Já. Mais do que uma vez. Principalmente nos tempos dos filmes de diapositivos, aconteceu sim.
Por variadíssimas razões: ou me esqueci completamente de colocar o filme na máquina (aconteceu-me a fotografar os Silence 4 e eles nem notaram... bastou-me "fingir" que mudava de rolo e colocar de facto o filme lá dentro);
ou ficou completamente mal medida a luz (e quando isso acontece, a um profissional que use o modo manual, fica todo o filme preto de uma ponta à outra... aconteceu-me num concerto do Prince, o segundo acho... estávamos demasiado longe do palco e o homem estava iluminado apenas por um follow spot);
ou, já na parte da revelação (que também era eu que fazia), a química da máquina passou-se! E aí tive efeitos maravilhosos, cores alteradas, enfim... dignas de Lomos actuais, mas que para um jornal não é propriamente bem-vindo.
Tal como já me aconteceu ficar sem bateria na 1ª música que nos deram para fotografar (já na era digital) e conseguir carregar durante a segunda música, e foi suficiente para fotografar a 3ª música... Aventuras para todos os gostos!
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Costumas fazes ajustes em pós-produção às tuas fotos? São pequenos retoques, ou por vezes alteras a foto por completo?
(+3 pontos, submetida por ivosilva)
Claro que faço algum ajuste, nem que seja a nível de cor. Fotografo em RAW, portanto isso obriga-me a passar a foto por um qualquer programa para a poder entregar a quem quer que seja.
Normalmente fotografo, descarrego, edito (escolho as fotos a entregar), e passo pelo Photoshop. Nunca altero propriamente a foto por completo, mas por vezes é necessário limpar o fundo (acontece-me bastante já que uso muito as grandes-angulares e quando fotografo em estúdio, mostra-se mais do que se deve).
A cor sim. Tento dar ambientes diferentes (nas fotos de sessões) consoante a cor: mais quente, mais frio... Nada que não se fizesse com diapositivos, com filmes tungsténio versus luz de dia...
Mas estes ajustes fazem sentido nos retratos ou nas sessões. Num concerto é raríssimo, aí é um trabalho de reportagem que não deve ter recurso a grandes artifícios.
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Por baixo da excelente profissional de fotografia musical há, com toda a certeza, uma pessoa que também gosta muito de música.
Houve algum concerto dos que tiveste de fazer reportagem mas que na realidade gostavas mesmo era de ir como fã, sem teres de te preocupar com a tua reflex, se as condições de luz são as ideais ou se o teu posicionamento na frente do palco te permite usar a lente fish-eye que tu tanto gostas????
(+3 pontos, submetida por carrera)
:) Obrigada pelo cumprimento...
Verdade que me enerva quando me "prendem" os movimentos, que me agrada muito mais fotografar um concerto como AC/DC, em que estávamos lado a lado com os artistas. Ao nível deles. Sem dúvida.
Mas é engraçado que me é muito mais difícil estar num concerto sem estar a fotografar, do que estar a fotografar e querer estar "calmamente" a ver o concerto. O que eu gosto mesmo é de fotografar, sem dúvida!
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Preferes trabalhar no "campo", em concertos e espetáculos ou em sessões encenadas?
(+2 pontos, submetida por ivosilva)
São dois trabalhos completamente distintos. Sinto falta de cada um deles quando não os faço. E são atitudes completamente diferentes.
Nas sessões estou muito mais preocupada antes e puxo muito mais por mim: o local, a produção, as horas, a meteorologia, o estilo a adoptar, cenário, a direcção dos artistas. Colocar os artistas à vontade, confortáveis, atentos a mim, sem desvios. E que tudo faça sentido e seja coerente com a música que tocam. E que seja original!
Nos concertos há muitas esperas e depois é tudo muito rápido. Mas, no momento, há que estar completamente concentrado e sem grandes falhas porque tudo muda demasiado rápido. Aí a experiência é preciosa. Conhecer a sala, o espaço, a luz e as sequências de luz. 3 músicas e já está! Não se repete.
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Quais os fotógrafos de referência?
(+2 pontos, submetida por cmoreira)
Não tenho tantas referências assim... Aliás, esta é uma área que não tem grande antiguidade, nem teorias.
Mas assim de repente poderia dizer-te o Anton Corbijn, o Mark Seliger e a Annie Leibovitz... são mais ou menos óbvios...
Portugueses, diria que fui muito influenciada (não se deve notar hoje, porém) pelo fotógrafo Pedro Cláudio, no final dos anos 80 (a revista K).
1 Comentário
3 anos
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